Estados fotográficos: quando as casas nos devolvem o olhar*

| segunda-feira, 20/08/2012 | 4 Comentários

Fernando Martinho / Paralaxis, Sobrados da Zona Oeste

As casa antigas sempre me intrigaram. Morei dez anos num sobrado cujas portas e janelas, de madeira, não fechavam direito de tão antigas. O teto, também de madeira, ‘ecoava’ tudo que acontecia no andar de cima. De anos em anos, as paredes sujas – as marcas dos pés debaixo da escrivaninha, a disposição dos quadros, o arranhado das costas das cadeiras, o decalque da bola atirada contra a parede, o queimado do sol à direita de meu quarto – eram vestígios substituídos pela pintura branca. A cada sucessiva pintura refaziam-se o jeito de nos sentar à mesa, o modo como decorávamos a casa, o hábito de encerar a tábua corrida. Não eram apenas as marcas que esfumaçavam; a tinta branca incidia também sobre os sons que as imagens ruminavam (a vassoura batendo no rodapé, o despertador lembrando a ida para a escola, a dor de cotovelo de minha mãe ouvindo Tim Maia, a alegria das manhãs com os Novos Baianos tocando na vitrola). O novo revestimento promovia abafamentos sonoros: as conversas, a separação, as festas, o barulho do liquidificador…. o rádio da cozinha… tudo entrava em suspensão provisória que me atingia, paradoxalmente, fazendo sentir como nunca sua estridência.

Quantas camadas de tinta cada casa pode acumular? O que encontraria o fotógrafo se, com um filme infravermelho, pudesse ir desfolhando e revelando pistas e vestígios das famílias que ali viveram?

Fernando Martinho / Paralaxis, Sobrados da Zona Oeste

Antes de minha família, outras marcas e ruídos se acomodaram naquela mesma casa que, desde do início do século passado, se equilibra no alto da ladeira João Afonso, no largo do Humaitá. Em cada casa velha, sucessivas camadas de apagamentos, vestígios sobrepostos, permanentes rearrumações diacrônicas. Paredes, portas, assoalhos e tetos-ouvidos. Vez por outra, ouvia transpirar pela tinta branca o cochicho de meus antepassados e também a voz dos meus eus passados. Logo depois da pintura feita, consequência da transgressão do familiar para o estranho, emergia a imagem. Volta e meia, via. Reencontrava as manchas debaixo da escrivaninha nos infinitos momentos de fazer o dever de casa; reencontrava-as quando já não estavam lá. Nos pequenos objetos cotidianos e familiares: na maçaneta da porta; na parede descascada ou, simplesmente, no vazio do pé-direito alto. Não eram assombrações, mas a história − que, às vezes, se torna perceptível na vertigem, fazendo o insignificante ser tomado de sentido.

A cada visão, existiam novamente as vozes, num som ou figura, mas sempre de modo fotográfico.

Explico: desconfio que a fotografia (de fato ou não; realizada ou não) não era a impressão luminosa numa superfície sensível, mas um estado de, subitamente, entrever a presença de algo que estava e não estava lá.

Fernando Martinho / Paralaxis, Sobrados da Zona Oeste

Tratava-se antes de um corte, interrupção: acontecimento capaz de fazer a casa emergir, mesmo que por alguns segundos, como potência de uma imagem especialmente fotográfica. Tratava-se de uma fotografia que não se efetivava pelo clic, mas pela entrada repentina da casa num estado próprio, num conjunto provisório de configurações e tensões temporais. A casa era, assim, dotada de inúmeros olhos que me fitavam de modo desconcertante, fazendo perceber não apenas minha presença (inscrita em atualidade da qual não se pode esquivar) e a presença de inúmeros murmurinhos passados, mas também minha ausência, futura embora iminente (a mesma que abafou as muitas vozes que viveram ali antes de mim). Morava, então, no interior da fotografia não realizada; numa paisagem provisória que me devolvia o olhar que à casa dirigi. Essas pupilas, que estavam e não estavam lá, eram os olhos da sina de ter sobrevivido à passagem cronológica; de ter visto e respirado outra atmosfera. Essa sina me convidava a habitar a manifestação de uma paisagem intensiva cuja força se devia a uma latência. Ela me convocava a entrar em muitas outras moradas, a investigar seus donos e destinos. O que eu via, naquele breve privilégio, não era a imagem do antigo morador, de seus hábitos e costumes; ao sentir sua presença (ela estava lá), havia que enfrentar os olhos do passado me devolvendo o olhar; havia que suportar a paradoxal coexistência da presença de um vento já ventado e da impossibilidade de sua experiência.

Talvez porque o estado fotográfico instale nos objetos a duração de um tempo adormecido, o tempo das coisas inanimadas, dos seres sem relógio e sem movimento – tempo peculiar que se manifesta entre a imagem de minha ruína e a ruína da imagem. Tratava-se de um arranjo singular em que a ausência se dava em modo de presença, e o reencontro em modo de distância, num regime tenso de proximidade dos longínquos. Tal vertigem tinha sido disparada pelo instante em que assistia bruscamente à minha própria falta: as paredes, a janela, o limo do muro não só possibilitavam a sutil presença do passado, mas também me faziam perceber a materialidade de minha futura ausência. No interior daquela espécie de fixidez, no rápido e brusco momento da percepção, a materialidade da casa emergia como experiência fotográfica, durando infinitamente, como num abismo.

Fernando Martinho / Paralaxis, Sobrados da Zona Oeste

Poderia ser que a fotografia se estivesse apoderando da casa sem atravessar nenhum aparelho? Sem que fizesse nenhuma peregrinação através de qualquer dispositivo tecnológico? Se houve um pisco, não tinha sua gênese na câmera; provavelmente havia sido gestado muito mais a partir de “maquinação” do que de uma maquinaria. Também não se tratava de obra exclusivamente minha; era a casa que me visava; era sua materialidade que podia (ou não) ser capturada pelo estado fotográfico. Sendo um estado, tratava-se de domínio precário, instável, transitivo, embora efetivo: um arranjo de configurações provisórias que a casa podia, ou não, apresentar. Uma configuração contingente proveniente de um corte, interrupção temporal, seguida por uma experiência intensiva de presença e duração. Efetuava-se, portanto, em trânsito temporal próprio, numa pequena crise geradora de vertigem que, provavelmente, nenhum outro modo de ser imagético poderia produzir.

Nenhum outro? Por que me parecia especialmente fotográfico o estado em que a casa ingressava? Como poderiam existir acontecimentos fotográficos desatrelados de suas câmeras de origem?

Se todas as famílias de imagens se interpenetram e dialogam, se minha percepção está contaminada tanto pela pintura como pelo cinema, tanto pelas imagens dos sonhos quanto as da memória, se quase já não conseguimos mais distinguir um tipo de imagem do outro, como poderia reconhecer um estado e outro sem a delimitação do agenciamento maquínico que o fermentou? Não estaria a casa – com seu regime de imagens sobrepostas e moventes – em um estado mais cinemático do que fotográfico? E mais: existiria alguma pertinência em, ainda, realizar tais indagações?

Provavelmente, quando pensamos em estado fotográfico, nos referimos a uma certa ideia de fotografia, que embora apresente uma “quase estabilidade,” possui um diagrama móvel, posto que sua emergência depende da história e dos modos com que certos agenciamentos maquínicos foram incorporados e modificaram o próprio estado de forças que lhes possibilitou. Tal ideia de fotografia, se ela existe, vincula-se a sua própria história: a seu advento, desenvolvimento, sua genealogia; a suas acomodações, fraturas e deslocamentos. O que a fotografia veio a ser não parece constituir essência única e imutável, mas algo que, em seu percurso moderno, em suas transformações, operou persistindo em um modelo temporal. Trata-se de um “veio a ser” fotográfico que, em sua intensidade, cristalizou o próprio vento de sua fundação – que esteve sempre a perder-se e encontrar-se, em tessitura temporal ora mais frouxa, ora mais tensa. Se é possível pensar a fotografia como um estado é porque parece haver nela, em sua história (insisto), uma experiência peculiar e vertiginosa de tempo.

Desse modo, pensar o fotográfico como estado exige que, ao entrever o aspecto transitivo dessa imagem, levemos em conta outros estados imagéticos, outras materialidades e operações que, ao longo da vida, nos atravessam. Por outro lado, exige também que se estabeleçam as condições de possibilidade desses trânsitos − possivelmente o reconhecimento de singularidades. O desafio, no entanto, é constatar que tais singularidades são elas próprias móveis, encarnam a história e simultaneamente a transformam. Assim, já não podemos saber se a casa seria hoje capturada pelo mesmo fotográfico: tudo parece indicar que aquele estado constituído por tensões temporais (o instante e a duração; o contínuo e o descontínuo; a urgência e a permanência; a memória e o esquecimento; o passado e o futuro) está em plena mutação.

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* Adaptação da apresentação do livro Sobrados da Zona Oeste, de Fernando Martinho, Editora Olhares, cujas imagens são também publicadas neste post.

 

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Categoria: Cláudia Linhares Sanz, Memória, Publicações

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4 Comentários para Estados fotográficos: quando as casas nos devolvem o olhar*

Editora Olhares -
21 de agosto de 2012

[...] Linhares Sanz. As imagens do autor, Fernando Martinho/Coletivo Paralaxis, também foram publicadas. Clique aqui para apreciar na [...]

Editora Olhares -
10 de dezembro de 2012

[...] Quem ainda não leu o texto de apresentação da Cláudia Sanz para o livro, veja de novo aqui direto do blog Icônica! [...]

Ode à resistência dos sobrados
19 de dezembro de 2012

[...] incluindo o espaço onde se vive. Vale ler o excelente artigo de Cláudia Linhares Sanz no Icônica, sobre casas e sua memória e afeto. Nesta perspectiva de observação e convivência com esta [...]

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