Minhas férias no Instagram

| segunda-feira, 4/02/2013 | 12 Comentários

Fim das férias. Nesse período, um lugar por onde me aventurei foi o Instagram. Lá eu procurei e fui encontrado por amigos, colegas de trabalho, alunos, alguns desconhecidos, pessoas com quem compartilho não mais que uma dezena de imagens por semana. É algo lúdico, irreverente, descomprometido com um ideal de arte fotográfica, assim como sempre foi para a maioria das pessoas.

Fernando Schmitt, Instagram

Fernando Schmitt, Instagram [@fximiti]

Boa parte dessa minha pequena rede é formada por pessoas que, fora dali, levam a fotografia muito a sério. Quase todos assumem essa rede como um espaço para coisas variadas e despretensiosas. Eventualmente, um ou outro esboça, com essas mesmas coisas variadas e despretensiosas, algo que ganha contornos de uma pesquisa.

Nesses tempos em que a fotografia assume um forte caráter conceitual, em que os artistas trabalham a partir de projetos, batalham os editais e tem que saber vender o que fazem, o Instagram permite resgatar um aspecto diletante recalcado em nossa relação com a fotografia: o hábito de perambular por aí colhendo cenas interessantes ou inusitadas, e de mostrar para um amigo qualquer a imagem que se conseguiu naquele dia. Fizemos muito isso nos tempos da fotografia analógica. Se esse fosse ainda o nosso modo de trabalho, soaria algo insuficiente e nostálgico. Mas no Instagram vale.

Juliana Nadin, Instagram

Juliana Nadin, Instagram [@junadin]

Sem dúvida, os profissionais são uma parcela muito pequena dessa rede, assim como os artistas que vemos nos museus ou que habitam nossas prateleiras de livros são uma fração ínfima do que foi produzido na história da fotografia. O Instagram é essencialmente composto por aqueles que registram suas férias, a família, os amigos, as baladas, a casa, o que comem, aliás, coisas com as quais muitos bons fotógrafos também se divertem. Torcemos o nariz mas a fotografia também é isso, ela sempre teve vocação para as coisas mundanas. Essa afirmação já aparecia em tom de acusação na boca de artistas e críticos do século XIX.

A história da fotografia é indissociável da cultura de massa, ela não pode ser entendida sem que se leve em conta suas manifestações populares e anônimas. Nesse sentido, o Instagram e o iPhone são tão relevantes quanto a 5D, assim como, historicamente, a Kodak foi tão relevante quanto a Leica.

Jacques-Henri Lartigue, Prima Bichonnade saltando, 1905.

Jacques-Henri Lartigue, Prima Bichonnade saltando, 1905.

Acho produtivo esse espaço de indistinção em que as imagens assumem um destino incerto e se contaminam. É menos problemático todos se divertirem com os filtros do Instagram do que um amador ser convencido de que terá um bom portfólio se comprar mais lentes e frequentar workshops com profissionais que revelam os segredos da boa fotografia.

Em contrapartida, algo difícil de admitir: a forte presença da fotografia nos espaços de arte contemporânea deve muito ao fato de suas imagens terem disseminado uma cultura ampla, para além das noções de “gênio” ou “gosto” artístico, mais do que aos esforços dos grandes autores.

O Instagram é uma febre e vai passar. Certamente trocaremos de aplicativo muito mais rápido do que costumávamos trocar de câmera. Não é isso que importa. As questões que quero pensar valem também para o Flickr, para o Hipstamatic, e para a próxima rede de compartilhamento de imagens que vier. Seja qual for a bola da vez, essas experiências dizem muito mais sobre o impacto das novas tecnologias na fotografia do que a melhor das câmeras profissionais. É na amplitude da circulação e não na quantidade de pixels que a fotografia digital mostra sua cara.

Malu Teodoro, Instagram

Malu Teodoro, Instagram [@maluteodoro]

A fotografia não é apenas uma imagem, mas também um universo de rituais. É aqui que devemos buscar as mudanças mais significativas. É com os blogs, o Orkut, o Facebook, o Flickr, o Instagram, e claro, com os smartphones que vemos a cultura fotográfica ser impactada por dinâmicas efetivamente novas, ainda que sujeitas às mesmas e antigas críticas.

Vimos recentemente um videoclipe que circulou no Youtube que ironizava as manias do Instagram. Em seu alvo, tal paródia se aproxima da observação feita por Baudelaire sobre o modo como a “sociedade imunda se lança, como um único Narciso, à contemplação de sua imagem trivial sobre o metal” (O público moderno e a fotografia). A música é mais baseada numa encenação cômica do que em argumentos, e claramente se apropria da mesma vulgaridade que questiona para se difundir nas redes.

De fato, o Instagram está baseado no pressuposto de que tudo que é visto pode ser mostrado, do mesmo modo que o Twitter ou o Facebook levam a crer que tudo o que é pensado deve ser dito. É inevitável temer que não haja olhares suficientes para essa massa de informação. É necessário desconfiar da fragilidade das formas mecânicas e econômicas de interação criada pelas redes, sob a forma de botões como “curtir” e “compartilhar”.

É uma questão que merece ser pensada mas, antes de adotar uma postura apocalíptica, prefiro respeitar uma dúvida que permanecerá sem resposta. Olhando para as imagens que sobreviveram anonimamente ao século XX, e considerando o modo como pesquisadores, colecionadores e artistas estabelecem a partir delas um diálogo com a história, eu me pergunto: quem estaria em condições de definir qual imagem deveria ou não ter sido produzida? Quem poderá dizer de antemão qual a imagem terá valor para a história ou para a memória?

[@entler]

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Categoria: Cultura, Ronaldo Entler, Tecnologia

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12 Comentários para Minhas férias no Instagram

Olívia Niculitcheff
4 de fevereiro de 2013

Muito interessante o post, Ronaldo! Acho que não temos que ter preconceito com o instagram, é uma ferramenta muito interessante e que trás aspectos diferentes de fotos tiradas com câmeras profissionais, não necessariamente piores. O que fico pensando é, nessa sociedade onde tudo muda e se perde tão rápido, espero que estas fotos cotidianas sejam de alguma forma preservadas, para que possam virar memória e fazer parte da história.

Marcus Laranjeira
4 de fevereiro de 2013

Acho que o maior trunfo do Instagram é permitir, ainda hoje, a execução daquela inspiração momentânea e despretensiosa sem querer agradar ou desagradar alguém; uma forma de mostrar o que viu e chamou a atenção e só.

Concordo também quando você diz que ele não será pra sempre, assim como não é (ou não deveria ser) pra sempre nenhuma rede social, mania, modo, equipamento, ideia, conceito, etc.

Clicio Barroso Jr.
4 de fevereiro de 2013

Ronaldo;

Interessantíssimo texto, indo de contraponto aos que já apareceram por aí; mais interessantes ainda são as fotos, as belas fotos. Instagram? Lomo? Colódio? MarkIII? Who cares?

Rogerio Ghomes
4 de fevereiro de 2013

agradeço pela lucidez do seu texto!!

Francine Rocha
5 de fevereiro de 2013

Excelente post! Não precisamos ficar sempre na defensiva frente as novas tecnologias e que hoje tornam-se cada vez mais populares. Resta-nos saber observar e selecionar o que for positivo em cada uma dessas questões.
Assim como comentou o Marcos Laranjeira logo acima, o Instagram mostra-se como fonte de “inspiração momentânea e despretensiosa”. Agradar ou desagradar alguém é o que menos importa. É a realização descompromissada com a perfeição!
Resta saber se alguns desses ricos registros serão perpetuados. Quem sabe?!?

Marcos Issa
5 de fevereiro de 2013

Parabéns Ronaldo, não deixe de relatar sempre as suas férias! Valor para a história ou para a memória? Espero que não seja apenas imagens com mais “curtir”, mas as boas, como estas do Fernando Schmitt que eu nem tinha “curtido” ainda!

elaine eiger
12 de fevereiro de 2013

Muito interessante o texto ! Só faltou você dizer como te achar no Instagram….

Ronaldo Entler
13 de fevereiro de 2013

Elaine, é fácil: @entler

Vivianne Fonseca
24 de fevereiro de 2013

Adorei o texto!
Uso o instagram justamente para fazer fotos despretensiosas e cotidianas, sem preocupação com o “vai agradar?”. Realmente tanto faz!
Estou fazendo uma pesquisa em iniciação científica sobre a ruptura entre o analógico e o digital tentando trazer alguns aspectos importantes sobre o assunto.

[...] Leiam o posto completo > http://iconica.com.br/blog/?p=4669 [...]

Fabs
4 de março de 2013

Acho que mais que o Instagram, vale a gente pensar na fotografia feita com celular como fonte transformadora tanto em termos de arte quanto da velocidade/portabilidade/compartilhamento da informação:

http://magnumfoundation.tumblr.com/post/26844435144/emergencyfund-notes-from-the-field-ben-lowy

quando um ícone como a Magnum se une à isso, não da pra negar o peso.

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