Vivemos hoje um tempo de produção desenfreada de imagens, como Vilém Flusser diz no livro Filosofia da caixa preta sobre a máquina fotográfica: “O aparelho é brinquedo sedento por fazer sempre mais fotografias. Exige de seu possuidor que aperte constantemente o gatilho.” (FLUSSER, 1985).
Com o celular, ainda somos reféns desse aparelho-brinquedo: estamos presos a um gesto automático, viciante, que resulta num acervo gigante de imagens, que não pode ser mostrado em sua totalidade, mas do qual também não estamos dispostos a nos desfazer. Então, por que fotografar?
Giselle Beiguelman, que estuda o impacto da tecnologia na vida cotidiana, pensa a onipresença desses aparelhos no mundo como um fenômeno de cibernetização do corpo. Segundo ela, o celular hoje já se tornou uma extensão do corpo humano, como um terceiro olho na palma da mão. Nós o utilizamos como relógio, agenda, mapa, bússola, câmera fotográfica e de vídeo.
Respondendo ao desejo de imediatismo, o celular transformou o gesto fotográfico num meio crucial da comunicação, convertendo praticamente todas as pessoas em produtoras de imagens (BEIGUELMAN, 2010).
Uma vez que estamos falando de imagens captadas sem nenhum planejamento, são meros registros que se empilham em redes sociais, a hipótese de que essas imagens são sempre carentes de significação se tornam uma afirmativa cada vez mais atraente. No entanto, prefiro buscar nessas imagens o que pode lhes restar de sentido afetivo. Nas palavras do artista e pesquisador Joan Fontcuberta, em seu livro A câmera de Pandora: a fotografi@ depois da fotografia:
“O ato fotográfico submete o fotografo a uma sequência de decisões que mobiliza todas as esferas da subjetividade. O fotógrafo é um personagem que pensa, sente, se emociona, interpreta e toma partido. E que faz tudo isso inclusive sem perceber.” (FONTCUBERTA, 2012).
Sendo assim, não podemos desconsiderar todo conteúdo subjetivo que leva uma pessoa a fotografar. O que proponho não é mais interrogar aquilo que move o gesto singular de fotografar, mas sim a intenção que leva a escolher, nomear, seriar, apresentar e compartilhar uma imagem.
Penso que, na contemporaneidade, o ato fotográfico transcende o instante de cada tomada e passa a envolver gestos que recaem sobre conjuntos de imagens.