Até recentemente sentia-me em crise com a fotografia, não conseguia mais fotografar pois necessitava entender melhor as questões acerca dessa linguagem trazidas pela contemporaneidade: o excesso, a necessidade de produção, as separações de gêneros fotográficos, a grande preocupação com a técnica.

Mesmo afastada do mercado, percebi que ainda seguia num fluxo continuo de produção de imagens, mas havia mudado o dispositivo, utilizando apenas o celular. Em princípio, essas imagens se tornaram um hábito não muito distinto daquele que constitui uma produção amadora.

Resolvi então estudar o que me levou a esse hábito, entender se é um sintoma da nossa sociedade do consumo, ou se é apenas uma praxe de fotógrafa.

Para isso, mergulhei no meu próprio acervo, um conjunto vivo de fotografias que continua a se desenvolver ao longo do projeto. Defini apenas uma data de início, março de 2015: ano que parei de trabalhar profissionalmente com a fotografia e que me formei em artes visuais.

Ao trabalhar com minhas imagens, a primeira coisa que notei foi a quantidade de cenas repetidas, séries de quadros semelhantes, pequenas mudanças, às vezes imperceptíveis, às vezes notáveis, mas voltada a um o objeto que era sempre o mesmo, como se a câmera caminhasse ao seu redor para registrar todas as nuances do momento, ou apenas destacar um detalhe.

Mas ao invés de renegar esse excesso, o usei. Destaquei tais repetições, evidenciando o meu próprio fluxo de produção e buscando uma forma de compartilhar todas as imagens presentes nesse meu acervo.